segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Solução de Mercado Para a Crise Financeira

As últimas semanas da crise financeira internacional têm sido marcadas por um consenso pouco criativo: o da necessidade de salvar Wall Street com dinheiro do contribuinte. Melhor dizendo, que para salvar os empregos da gente trabalhadora de Main Street é necessário impedir as perdas dos banqueiros em Wall Street (obviamente, com o dinheiro da turma de Main). Cá entre nós, brasileiros, já vimos coisa semelhante: a base do nosso protecionismo é calcada no estranho argumento de que para melhorar a vida dos mais pobres, ou seja, promover desenvolvimento com inclusão social, é necessário proteger os ricos escolhidos pelo governo e transferir renda para eles, com subsídios diretos, proteção contra concorrência, financiamento barato, etc. Não é claro para mim que esta estratégia conseguiu algo mais do que transferir renda para os ricos e empobrecer os pobres - a famosa idéia do economista Edmar Bacha de chamar o país de Belíndia (parte Bélgica, parte Índia) na década de setenta transparece uma acurada percepção deste efeito em ação. Da mesma forma, as discussões de bailout parecem trilhar o mesmo caminho: usar o dinheiro dos muitos contribuintes para garantir a vida boa de alguns, com a devida retórica que assim se faz para proteger os primeiros.

Nada contra a função de emprestador de última instância do Banco Central, que se bem estruturada serve para evitar crises financeiras. O problema desta crise é que a famosa "Doutrina Clássica" de Bagehot não é crível: Lembrem-se que o pânico começou depois que o Lehman Brothers não foi socorrido pelo Fed, rompendo com a expectativa em Wall Street de que o banco era grande demais para quebrar ("too big to fail") e que deveria receber auxílio do Fed.

O que é mais irritante nesta crise é a baixa criatividade dos principais economistas do planeta, em não conseguir apontar uma solução que limita as perdas à sua origem. É inacreditável que não se tenha pensado em como funciona o mercado de crédito imobiliário para se entender as razões de tão grande ineficiência. Ademais, inadimplência de mutuários não é desejável nem pelos próprios nem pelos bancos. Mas obviamente existem exceções. Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, apresenta uma elegante solução de mercado para crise. Se é suficiente, não sei, mas nos traz uma chama de esperança, pois indica que ainda existem economistas inovadores:

The United States (and possibly the world) is facing the biggest financial crisis since the Great Depression. There is a strong quest for the government to intervene to rescue us, but how? Thus far, the Treasury seems to have been following the advice of Wall Street, which consists in throwing public money at the problems. However, the cost is quickly escalating. If we do not stop, we will leave an unbearable burden of debt to our children.

Time has come for the Treasury secretary to listen to some economists. By understanding the causes of the current crisis, we can help solve it without relying on public money. Thus, I feel it is my duty as an economist to provide an alternative: a market-based solution, which does not waste public money and uses the force of the government only to speed up the restructuring. It may not be perfect, but it is a viable avenue that should be explored before acquiescing to the perceived inevitability of Paulson’s proposals.


Um comentário:

Tiago disse...

Professor, eu acho que o problema é de regulação sim. Os bancos de investimentos devem ser regulados assim como os bancos comerciais o são. Não há nada mais liberal do que pregar por instituições fortes que dê incentivos certos às empresas. O que não pode ocorrer é as empresas privadas jogarem fora das regras do jogo. Que foi efetivamente o que ocorreu: grandes bancos comerciais e principalmente bancos de investimento criando Structured Investment Vehicles em paraísos fiscais para fugirem do requerimento de capital do Acordo da Basiléia. Isso é inadmissível. Além disso, tivemos CDO´s que eram precificadas por métodos quantitativos que levaram em consideração preços defasados de variáveis que nunca tinham passado por deflação em seus preços e/ou índices. Como se não fosse o bastante esses CDO´s eram securitizados com Credit Defaut Swaps onde as seguradoras eram lançadoras do derivativo e que não calculavam risco de default total ou ao menos muito elevada. Com todos esses erros fica evidente (na minha visão) de que o problema foi que as instituições não evoluíram junto com os instrumentos financeiros. Os derivativos financeiros e outros instrumentos que possibilitaram alavancagem evoluíram muito rápido enquanto que as instituições não tiveram evolução nenhuma. Isso levou a um problema nas regras do jogo. As regras do jogo deveriam ter evoluído com os instrumentos fianceiros, o que não ocorreu. Na minha opinião, foi esse o principal fator que originou a crise. A ganância de wall street ocorreu, mas qual o problema? A ganância é uma coisa boa, desde que prevista e bem mensurada por um arcabouço de instituições que consiga mensurar os riscos corretos de tal atitude e passe esses riscos para o mercado. As empresas precificaram seus ativos erradamente, pois, foram induzidas a isso, ou seja, as regras do jogo induziram as empresas a isso (um exemplo foi o método de agente autônomo - que ganhavam através de comissões - que os bancos utilizaram para captar clientes de crédito imobiliário). A assimetria de informações ganhou terreno em um mercado que se achava livre dela. Sendo assim é necessário reconstruir as regras do jogo de um modo que os incentivos certos sejam dados às empresas. Por esse motivo eu acho que é necessário ajudar os bancos e as seguradoras envolvidas, pois elas foram induzidas pelas instituições fracas a fazer isso. Acho que a questão de moral hazard não se aplica, pois, existia assimetria de informações quanto ao risco sistêmico das operações, sendo assim, o problema de moral hazard já cai por terra, pois, como poderia as empresas acreditarem que o governo interviria se não havia nem idéia de um risco dessa magnitude? Ou seja, ninguém imaginou um default no mercado imobiliário, sendo assim, as empresas inflacionaram esses ativos pensando que as cifras eram reais, os bancos não tinham a informação completa (pois os métodos quantitativos não combriam todas as informações necessárias à precificação), não tendo a informação completa não sabiam que os valores das casas estavam inflacionados, sendo assim, não podiam esperar ajuda governamental pois acreditavam realmente naqueles valores, acreditavam que o mercado estava funcioando normalmente. Como o próprio Alan Grenspan disse: “não se sabe concretamente quando há uma bolha só a descobrimos depois que ela estoura.”. A acho que a ajuda é necessária, pois, não podemos deixar os prejuízos com os bancos que receberam sinalizações erradas das instituições. Acho que a ajuda é necessária por causa disso e por que os custos são menores do que se a crise fosse deixada na mão do mercado. O mercado obviamente se reergueria e criaria empresas mais sólidas do que as que existem hoje, porém, certamente, o custo disso é maior do que uma ajuda e esforço global para reatar a liquidez no mercado de ABPC´s. Acho que há um grande espaço para o desenvolvimento da teoria dos jogos no campo das instituições do mercado financeiro, principalmente do mercado de derivativos de crédito. E acho que os esforços liberais devem ser orientados nesse sentido, para que a próxima crise de inflação dos preços de derivativos não nos pegue desprevenidos. Alguns economistas austríacos estão falando em deixar os bancos quebrarem e tudo mais, porém, eu acredito que não se trata de um caso desses, pois o próprio F. Hayek, em "O Caminho da Servidão", já disse que o capitalismo e o livre mercado necessitam de planejamento. Não planejamento do tipo socialista e sim um planejamento que desenhe instituições capazes de dar os incentivos corretos para os mercado. O senhor não concorda?